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Toma lá, dá cá favorece a corrupção e eu não faço isso, diz prefeito de vida simples

(Last Updated On: 07/01/2018)

Toma lá, dá cá favorece a corrupção e eu não faço isso, diz prefeito de vida simples

Altir Peruzo é um dos raros agentes públicos identificados pela sua simplicidade, anda de ônibus, dispensou camioneta da prefeitura e mora numa casa simples para os padrões políticos

Altir Peruzo, um dos históricos petistas de Juína e hoje prefeito, leva uma vida simples e abriu mão de utilizar camioneta da prefeitura

 

Prefeito de Juína (a 733 km de Cuiabá), Altir Peruzo tem 52 anos, é natural de Concórdia (SC), mas mora em Mato Grosso desde 1985. Sua vida pública começou em 1992, quando foi eleito vereador na mesma cidade hoje gerida por ele. Afeito a uma vida simples desde sempre, nunca abriu mão, nem mesmo quando tornou-se deputado (assumiu como suplente do atual prefeito da capital, Emanuel Pinheiro) de enfrentar pelo menos 12 horas dentro de um ônibus para vir de sua cidade até Cuiabá, onde fica a sede da Assembleia Legislativa.

Formado em ciências contábeis, também é técnico agrícola e trabalhou em diversos serviços considerados incomuns aos políticos do país, como em garimpos e no plantio de café e na construção civil. Sobre o pitoresco ato de entregar uma caminhonete comprada pelo prefeito anterior e deixada para seu uso a uma secretaria do município, explica de maneira direta o motivo da decisão: “um carro público desses custa de R$ 140 mil a 150 mil, portanto, tem um imposto de R$ 8 mil, um seguro de outros R$ 7 mil, quer dizer, olha o tamanho da despesa que um carro desse dá só nessa situação? Um carro pequeno não custa nem um terço disso e me atende do mesmo jeito”.

O senhor é de origem familiar humilde, confere?

Eu sou filho de pequenos agricultores lá do Sul, não tenho vida de carreira política nem tradição de políticos na família.

Também é famoso em seu meio por manter hábitos simples, é verdade?

Eu jogo bola até hoje, gosto de um forrozão, de um baião, não frequento clubes da elite, frequento é a periferia mesmo. Na verdade, acho que isso vem mesmo é da convivência familiar, porque minha esposa também é filha de pequenos produtores. Não tenho nada contra (quem busca mais sofisticação), tenho bons relacionamentos com todo mundo, mas meus hábitos são mesmo mais populares. Sempre foram.

Nunca quis refinar seus gostos?

Não penso nisso. Acabei ingressando na política a partir da minha militância na Pastoral da Juventude, no movimento de trabalhadores e agricultores. E aí, digamos assim, meu círculo de convivência, de amizades, sempre veio desses setores.

Não sofre nenhuma pressão do meio que hoje frequenta (políticos, empresários, gente do Judiciário) para ostentar mais?

Não. Sempre houve convites para integrar grupos mais elitizados, várias organizações e tal, ao longo do tempo; assim como há convites, porque sempre fui do PT (é um dos fundadores do partido na cidade), para mudar de legenda. Nunca mudei de partido, não vou mudar, não tenho pretensão de mudar. Entretanto convites, pressões, gente dizendo que se sair do PT todos os empresários vão abraçar as campanhas, há sim, mas minhas campanhas sempre tiveram os menores índices de votação nesses locais elitizados.

Isso não acontece nas periferias?

Tenho que ser valorizado e respeitado pela maneira de pensar e a coerência da minha história

Em bairros da periferia, eu já tive até 80% dos votos, no centro da cidade, eu ou empatei ou ganhei com margens de menos de 1%; então, sempre que tem esse tipo de conversa, sobre ir para partido a ou b, sobre estar mais na roda, na organização deles – e isso não é só do círculo de deputados, é desde quando me tornei prefeito -, faz parte do dia a dia, mas sempre tratei isso com naturalidade. Sempre disse que tenho que ser valorizado e respeitado pela maneira de pensar e a coerência da minha história. Acho isso importante na carreira política, manter um discurso só, uma posição só. Discordar até discordam, mas sabem que há coerência mesmo na posição contrária.

Em bairros da periferia, eu já tive até 80% dos votos. No centro da cidade, eu ou empatei ou ganhei com margem de menos de 1%

É possível mesmo fazer política no Brasil sem meter a mão na cumbuca, como se diz popularmente?

É possível sim, eu vivo essa experiência. Lógico que não tem como fazer campanha com gasto zero (isso é conversa pra boi dormir), porque vamos pegar como exemplo a campanha de prefeito: muito mais tranquila, se faz reuniões, visitas, se tem um gasto menor, basicamente com produção de material e alguma coisa de som, mas pouca coisa. Se fizer um comício, e eu fiz um único nessa campanha, tem um gasto, mas não é nenhum exagero, porém, quando pega uma campanha de deputado, há outros fatores, como deslocamento para outros municípios, fazer seu material chegar nos outros municípios, ser distribuído. Então, por mais que tenha apoiadores que são do partido, seus conhecidos, sempre vai precisar de uma estrutura a mais.

Por que os políticos dizem que é impossível fazer campanha sem dinheiro e como o senhor faz isso?

Então, não tem como fazer com gasto zero, porém, tem como fazer campanhas extremamente modestas. É só definir um raio de ação. Minha campanha para deputado, por exemplo, foi basicamente no máximo a 13, 14 minutinhos de proximidade (ele conseguiu tornar-se suplente). Então, seu nome chega como de alguém da região, mas se fosse de uma região estranha, meu nome só chegaria a partir de uma estrutura maior de pessoal, de publicidade, que tem um custo mais elevado.

Para se manter na carreira política não é necessário fazer ouvidos moucos aos malfeitos?

Não. O que tem de se fazer é primeiro traçar um objetivo e entender qual é a meta. Por exemplo, na prefeitura agora tenho o objetivo de chegar ao final dos quatro anos de mandato com os objetivos cumpridos. Sei que em algum momento vou magoar alguém, deixar alguém descontente, mas sei que vou ganhar outro alguém que era contrário nesse meio tempo; só não posso ser inconsequente, tenho que medir sempre as consequências, e isso significa muitas vezes abrir mão de algum desses objetivos, dependendo do que quero fazer. Quando se faz campanha há várias metas, quando se ganha e assume, vê que algumas coisas não valem a pena, situações em que o desgaste será muito grande e pode prejudicar muita gente.

Esses desagrados não podem acabar por inviabilizar sua carreira política?

Há algumas situações mais delicadas, como as que, por exemplo, envolvem o programa de desenvolvimento. O mais comum é a pessoa ir atrás de emendas e recursos de governo que muitas vezes são feitos em troca disso ou daquilo. Eu não faço isso, eu corro atrás. Até consegui algumas emendas (há recursos encaminhados), mas sempre a partir da argumentação: lembro que Juína não é uma cidade tão pequena, que há um número grande de eleitores, argumento é uma fórmula de ter visibilidade. Tento mexer com aquilo que muitas vezes os deputados tem – pretensões de continuidade e que, por isso, fazem um misto do que é importante para a população mas que também reverta em campanha eleitoral. Isso é do jogo. Então lembro que atender essas comunidades vai reverter em dividendo político.

Isso não traz isolamento para o que especificamente o senhor defende?

Casa do prefeito Altir Peruzo, considerada simples para os padrões políticos e afastada do centro, já no módulo 4, região que abrange primeiros loteamentos da área urbana de Juína

Não. Eu tenho partido, tenho lado, e lembro aos deputados que tenho feito em média 37% a 47% de votos. Ganhei a eleição em 2004 e perdi a reeleição em 2012, mas com 42% dos votos. É o que argumento, tenho eleitorado. Faço tantos por cento dos votos e tem 60%, às vezes 65% desses votos voando, como (o deputado) vai se inserir lá? Ou através de alguma obra ou algum benefício, mas toma lá, dá cá, eu não faço, a política do tipo “você recebe isso, mas tem que fazer aquilo outro para a campanha”. Esse tipo de jogo eu não fiz e não faço. É onde aparece a maioria dos casos de corrupção, no jogo de interesses, no toma lá, dá cá. Prefiro perder o recurso do que conseguir algo com esse tipo de comprometimento.

O senhor não vai se candidatar a deputado nestas eleições?

Não. Como deputado, já cumpri meu mandato. Já abri mão de ficar com a vaga com a eleição do Emanuel Pinheiro (a cadeira do atual prefeito foi ocupada por ele na condição de suplente). Como na campanha o tema foi muito forte, porque meu vice (Luis Braz) também é do PT, uma chapa pura, o que nos últimos dias da disputa foi mais usado como argumento do concorrente era que só participava da disputa naquele momento, mas ficaria como deputado e quem governaria Juína seria o vice. Sempre argumentei que não. Disputei para ser prefeito de fato, durante os quatro anos. Eu renunciei ao mandato de deputado para ficar aqui e não vou concorrer este ano, cumprirei aquilo com o que me comprometi na campanha para prefeito.

Não foi um erro a política de alianças anacrônicas iniciada pelo PT em 2002?

Podia ter seguido outros caminhos, mas Lula havia perdido duas vezes a eleição e quando ganhou foi com um representante do empresariado como vice. Não estou dizendo que foi uma escolha errada, mas talvez o erro tenha sido persistir nessa aliança com o empresariado.

Para o partido vieram os problemas ao longo destes últimos anos, problemas esses frutos dessas alianças, vindas de outros setores corporativistas

Não foi exatamente isso que o PT acabou fazendo para se manter no poder, colar no empresariado?

Acho que a história a cada momento nos leva a tomar alguns tipos de decisões. Na época, quando Lula ganhou a primeira vez, por exemplo, ele aliou-se ao Alencar, do setor empresarial, como uma forma de chegar ao poder, de conquistar. Depois, na outra, teve aliança com o PMDB; mas se olhar hoje, o governo do PT em si trouxe inúmeros benefícios sociais para o país. Inúmeros. Agora, para o partido vieram os problemas ao longo destes últimos anos, problemas esses frutos dessas alianças, vindas de outros setores corporativistas, que tinham tradição de misturar o público e o privado e aí acabou caindo em toda essa situação que aconteceu.

O senhor vê o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica (José Alberto Mujica Cordano) como uma espécie de referência ao andar de Uno e ônibus e não de caminhonete por aí?

Isso é normal. Fiz isso a vida inteira. Às vezes vou de carro, mas 80% das vezes vou de ônibus, algumas vezes já fui de avião, especialmente quando era estrada de chão de Juína até Cuiabá, quando se gastava 20 horas, o carro atolava, não se sabia quando ia chegar, mas depois do asfalto, dura só 12 horas, então, sempre vou de ônibus ou carro. Só pego caminhonete quando vou mais para o interior é que eu pego alguma caminhonete da secretaria.

 

 

Rodivaldo Ribeiro RDnews

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